Agrofloresta se torna alternativa ao método de cultivo convencional

Sistema possibilita maior diversidade de espécies em um único canteiro e preserva os mananciais. Produção de alimentos orgânicos, geração de renda, conservação do solo e aumento da biodiversidade são algumas das vantagens do modelo

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A crise climática tem provocado debates em diferentes setores em economias do mundo todo. Um dos principais é o de produção de alimentos, no qual existem esforços para garantir itens de qualidade para todos, causando o menor impacto possível ao meio ambiente. Os sistemas agroflorestais (SAFs), caracterizados pela diversidade de culturas em um mesmo canteiro, apresenta-se como uma dessas alternativas ao método convencional.

Produção de alimentos orgânicos, geração de renda, conservação do solo e aumento da biodiversidade são algumas das vantagens do modelo, de acordo com Hamilton Favilla, assessor especial da Subsecretaria de Gestão de Águas e Resíduos Sólidos, da Secretaria de Meio Ambiente (Sema) do Distrito Federal. Ele também enumera como aspectos positivos a melhoria na qualidade de vida dos agricultores, a ampliação da ciclagem de nutrientes e o aumento da disponibilidade de água.

Hamilton detalha que o uso dessa tecnologia contribui para reordenar e restaurar o ambiente natural, por meio de uma produção em comunhão com a floresta. O sistema reúne, em uma mesma área, o plantio de hortaliças, de frutas e de madeiras, o que possibilita a recuperação de espaços degradados, a proteção do ecossistema e dos mananciais de água.

“Nesse tipo de agricultura, não é necessário o uso de defensivos químicos ou agrotóxicos. O ponto principal é a aplicação de adubos orgânicos de origem animal, principalmente oriundos do manejo das próprias agroflorestas”, destaca Favilla.

O projeto CITinova, coordenado pela Sema, implantou 20 hectares de sistemas agroflorestais mecanizados em 37 propriedades rurais do Distrito Federal. A iniciativa, financiada pelo Global Environment Facility — GEF (Fundo Global para o Meio Ambiente) e implementada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), também desenvolveu equipamentos agrícolas, como enxada rotativa subsoladora; ceifadeira-enleiradeira; e podadora em altura. Foram plantados 1.100 indivíduos de 25 espécies de árvores nativas do Cerrado — gerando 52 variedades de alimentos produzidos —, 10.298 árvores frutíferas e 9.424 eucaliptos.

Prosperidade

A professora aposentada Gedilene Lustosa, 51 anos, foi uma das contempladas pelo CITinova. Ela, que vem de uma família de assentados da reforma agrária e o marido é agricultor familiar desde os anos 1980, enveredou pelo caminho do magistério, mas sempre quis ter uma agrofloresta na propriedade onde vive, no Caub, sonho que começou a ser realizado em 2020.

Na chácara, a agrofloresta coexiste com canteiros de agricultura convencional, mas a nova forma de cultivo alterou hábitos no trabalho do marido. “A principal mudança é que não usamos mais pesticidas. Ele ainda usa fertilizante, coisa que eu não faço no meu SAF”, detalha. Para o combate de pragas, Gedilene lança mão de repelentes biológicos, como óleo de neem, calda de fumo, boveril e dipel.

O sonho foi motivado, principalmente, pela busca da preservação das nascentes da região. “Agora, o poço não seca mais na época de estiagem, e tenho maior diversidade de alimentos produzidos”, comemora.

O canteiro é um mosaico de culturas. Crescem, lado a lado, milho, banana, maracujá-pérola, laranja, mandioca, urucum, cúrcuma, cenoura e inhame. A renda da empreendedora foi impactada positivamente, sobretudo, após começar a comercializar cestas de vegetais encomendadas por pessoas de outras cidades do DF.

Saúde e educação

O Coletivo Aroeira adotou a agroecologia como forma de promover saúde mental e educação ambiental. O público-alvo das ações inclui profissionais do sexo, usuários de drogas, pessoas que passaram pelo sistema penitenciário e quem esteve em situação de rua.

No momento, o grupo, fundado em 2018, está em processo de instalação de uma agrofloresta no Parque Ecológico do Riacho Fundo, gerido pelo Instituto Brasília Ambiental, restaurando uma área que estava degradada. “Nosso objetivo é proporcionar diversidade de plantas, de frutas e de ervas medicinais para a população do Riacho Fundo 2. Em 16 de março de 2023, começamos a parte do plantio junto à comunidade, também oferecendo atividades de educação ambiental”, detalha Ana Cavalcanti, psicóloga integrante do coletivo.

A previsão é de que a estrutura tenha mais de 50 espécies, como milho, inhame, abóbora, mandioca, plantas medicinais, espécies frutíferas e nativas do Cerrado. “A vantagem do SAF é que ele nos permite que criemos uma floresta com todos os serviços ecológicos que esse espaço proporciona, como captação de água, limpeza do ar, mais qualidade de vida no solo e para a fauna local — abelhas e outros insetos —, conservação de espécies nativas e criação de um microclima”, elenca.

A psicóloga destaca, ainda, que, fora os benefícios para a comunidade, a educação ambiental, que é imperativo da agricultura agroflorestal, é um elemento central na discussão da crise climática. “Agroecologia sem debate político é apenas apenas jardinagem”, avalia a psicóloga.