Por que suspeita de uso de plugue anal para trapacear no xadrez é descabida

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O xadrez vive um escândalo em seu mais alto nível desde o mês passado devido a uma suspeita de trapaça de um jogador contra o campeão mundial da modalidade. O americano Hans Niemann está sendo acusado de trapacear em surpreendente vitória contra o norueguês Magnus Carlsen, pentacampeão mundial. O resultado deu tanta polêmica que até surgiu uma teoria inusitada de como Niemann usou plugues anais para tirar vantagem. O UOL Esporte ouviu especialistas e te explica por que essa versão é descabida…, mas tem uma base viável.

A derrota no início de setembro, na Sinquefield Cup, um torneio nos Estados Unidos, acabou com a invencibilidade de dois anos de Carlsen. Foram 53 partidas sem perder. Depois do revés, o norueguês resolveu se retirar da competição. Ele fez o anúncio no Twitter e postou um vídeo do treinador português de futebol José Mourinho. Nele, o técnico diz: “Se eu falar, estou em uma grande confusão”. O post foi visto como uma indireta à suposta trapaça de Niemann.

Uma teoria criada por um streamer afirma que o americano teria trapaceado usando plugues anais eletrônicos que vibrariam em Código Morse e permitiriam que Niemann recebesse dicas sobre os movimentos corretos a serem realizados. A teoria chegou a ser compartilhada até pelo bilionário Elon Musk no Twitter, mas ele apagou o post depois. Nada foi comprovado até agora contra o americano.

Identificar trapaças em jogos presenciais é bastante complexo, já que os grandes mestres de xadrez requerem muito pouca ajuda para trapacear. Alguns movimentos sutis podem ser suficientes para vencer um campeão mundial.

O UOL Esporte ouviu dois especialistas que afirmam ser possível trapacear usando Código Morse. Mas como?

O tabuleiro de xadrez tem 64 casas divididas em linhas e colunas que vão de 1 a 8 e de A a H. Cada casa tem um nome, como H3, por exemplo. O nome da casa é o que poderia ser transmitido via Código Morse. Mesmo assim, a suspeita de plugue anal não é levada a sério. 

Precauções

Os principais torneios da modalidade contam com medidas de segurança para evitar trapaças. Primeiro, existe o próprio regulamento de cada competição. Segundo, não é permitida a entrada com dispositivos eletrônicos —os atletas passam por revistas e por detectores de metal (o que identificaria o plugue anal eletrônico). Terceiro, quando as partidas terminam são checadas com o uso de programas que verificam o percentual de acerto dos enxadristas. Outra medida é transmitir torneios ao vivo com delay de até uma hora para evitar um possível contato do atleta com alguém de fora do local de competição.

“É possível receber [via Código Morse]. Então, teria como passar essa informação, mas acho pouco provável em qualquer sistema porque o pessoal já está habituado. Ele [Niemann] deve ter sido criativo de alguma forma para trapacear, ou é um gênio incompreendido, mas é pouco provável que seja isso, está mais para que ele está fazendo algum tipo de trapaça, possivelmente utilizando um sistema de comunicação pouco usual, mas que não encaixaria nisso que o pessoal está falando, porque o sistema eletrônico teria identificado, seja o plugue anal ou ponto eletrônico”, disse Kaiser Mafra, vice-presidente técnico da CBX (Confederação Brasileira de Xadrez) e árbitro internacional.

“Esse negócio do plugue foi uma brincadeira que tomou proporções gigantescas. Receber informações por Código Morse seria possível, sim. Depois que começou tudo isso, aumentaram muito mais as medidas de segurança nos torneios que ele [Niemann] está jogando”, afirmou Alexandr Fier, Grande Mestre de Xadrez e número 2 do Brasil no ranking da Fide (Federação Internacional de Xadrez).

Fier ainda lembrou de um outro caso famoso. Em 2013, o búlgaro Borislav Ivanov se aposentou após ser acusado de trapacear ao passar e receber informações por Código Morse pela ponta de seu sapato.

Suspeita de trapaça em mais de 112 partidas 

Hans Niemann, enxadrista americano - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram

Depois da vitória polêmica de Niemann contra Carlsen no xadrez presencial, o jornal The Wall Street Journal teve acesso ao relatório de uma investigação feita pela plataforma Chess.com que apontou sinais de trapaça em mais de 100 partidas on-line do americano até 2020.

No passado, o enxadrista de 19 anos já reconheceu que trapaceou em jogos de xadrez on-line quando era mais novo, aos 12 e aos 16 anos. Agora, o The Wall Street Journal analisou o relatório da investigação feita pelo Chess.com, que descobriu que as trapaças são maiores do que ele admitiu publicamente. A investigação apontou que Niemann provavelmente recebeu ajuda em 112 partidas, muitas realizadas em torneios que distribuíram premiações em dinheiro.

O site usa uma variedade de ferramentas de detecção de trapaças, incluindo análises que comparam movimentos com aqueles recomendados por computadores capazes de derrotar até mesmo os maiores jogadores de xadrez todas as vezes.

O relatório de 72 páginas também destacou “muitos sinais notáveis e padrões incomuns no caminho de Hans como jogador” ao longo da carreira, mas não chegou a uma conclusão se ele trapaceou em partidas presenciais.

Segundo Kaiser, é comum ver trapaças em qualquer tipo de jogo on-line, não só no xadrez, quando os jogadores utilizam Bots, robôs que melhoram o desempenho. 

“A pandemia ajudou muito o xadrez, popularizou bastante. O cara no conforto de casa podia praticar o xadrez, mas a questão da trapaça aumentou muito. No xadrez on-line, as máquinas fazem depois a análise do percentual de acerto dos jogadores. Ele pode ter um percentual alto em determinada partida, mas é pouco provável que tenha percentual alto em várias partidas, mantendo alto nível que só a máquina teria. No xadrez on-line, infelizmente, é comum ter esse tipo de trapaça.” 

Gênio da trapaça… ou não? 

Magnus Carlsen e Hans Niemann, durante partida de xadrez - Crystal Fuller / Grand Chess Tour - Crystal Fuller / Grand Chess Tour

Para Fier, está praticamente certo que Niemann trapaceou “várias vezes” no xadrez on-line. “Está praticamente provado. Em termos de roubou ao vivo [no xadrez presencial], é difícil. Realmente difícil saber sem provas. Ele joga muito bem, isso é fato, e, às vezes, se o cara usa ajuda em só uma ou duas jogadas, fica muito difícil identificar”, declarou. 

“A subida dele [no ranking] foi bem rápida, um pouco estranha, mas não dá para acusar só por causa disso. Estou esperando as coisas virem à tona, não tenho uma conclusão.” 

Já Kaiser acredita que Niemann não trapaceou contra Carlsen. Segundo ele, o campeão mundial cometeu erros naquela partida, o que não é habitual para o norueguês. Mesmo assim, o árbitro desconfia do desempenho do americano em outros jogos. 

“Se ele não trapaceou naquela partida, nas outras tem indícios muito fortes dele ter trapaceado”, disse Kaiser, que vai além. “O Niemann, se não é um grande gênio, eventualmente vai ser um gênio da trapaça, porque ele criou alguma coisa que passa despercebida pelos mecanismos que temos.”