Rússia diz para NASA que deve ficar na ISS até 2028

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Após anunciar que deixaria a Estação Espacial Internacional (ISS) após 2024, a Rússia parece ter explicado melhor sua ideia. Pelo menos é o que a agência espacial do país, Roscosmos, informou para a NASA. As duas praticamente dividem a operação da ISS (apesar de outras agências, como a europeia, também atuarem por lá) e o trabalho em conjunto é fundamental para a manutenção das operações.

De acordo com a agência de notícias Reuters, a chefe de operações da NASA, Kathy Lueders, foi informada pelos russos que o país gostaria de manter astronautas na ISS até que sua própria estação esteja pronta. Como noticiado pelo Olhar Digital, a expectativa é que as operações da unidade inteiramente russa no espaço comecem em 2028.

Além disso, Lueders explicou que até o momento não há nenhum sinal de que o trabalho conjunto das duas agências na ISS será interrompido. “Não temos nenhum indício, em nenhum nível de trabalho, de qualquer mudança”,explicou para a agência.

É bem verdade que 2028 é praticamente o ano limite para a ISS. Segundo a própria NASA, o tempo de uso da estação é até 2030 e após isso ela deve ser aposentada por completo. O acordo atual entre as duas agências é válido até 2024, com os americanos querendo estender até justamente 2030 e, aparentemente, os russos apenas até 2028.

Yuri Borisov, o novo chefe da Roscosmos, a agência espacial da Rússia, revelou na terça-feira (26) que o país realmente decidiu deixar a ISS, mas apesar da dura declaração e da validade atual do acordo, ele não garantiu uma data para a saída. “A decisão de deixar a estação após 2024 foi tomada”, declarou. Ou seja, a nova informação não necessariamente desmente Borisov, apesar de colocar uma pulga atrás da orelha nos prazos russos.

Divisão entre Rússia e EUA na ISS

É comum dizer que a ISS tem um “lado russo” e um “lado americano” (embora a realidade seja um pouco mais complexa), e astronautas dos dois países são presença constante nas tripulações que se revezam em órbita a cada seis meses.

Além disso, a própria estrutura da ISS garante a cooperação entre seus membros. O “lado russo” depende de painéis solares no “lado americano” para obter energia elétrica, e estes dependem dos russos para, basicamente, manter a estação “no lugar”.

Isso porque, mesmo a mais de 400 km da superfície, ainda há atrito entre a estação e a atmosfera da Terra, o que faz com que a velocidade e a altitude do laboratório orbital sejam constantemente reduzidas. Por isso, são necessárias manobras periódicas para compensar essa “queda”, feitas usando os propulsores das espaçonaves russas que regularmente visitam a estação.

Mesmo acreditando que a Rússia não deixaria o programa, algumas alternativas vêm sendo testadas. Em junho, uma nave Cygnus da norte-americana Northrop Grumman que estava conectada à estação depois de deixar uma carga útil para a tripulação, realizou uma manobra de impulso operacional pela primeira vez, com o intuito de testar essa capacidade funcional até então executada apenas pelas cápsulas Progress, da Rússia.

Além disso, embora os veículos Dragon da SpaceX não tenham propulsores orientados para executar tal manobra, Lueders disse que a empresa está estudando incluir essa “capacidade adicional” em suas cápsulas de carga. 

Segundo Lueders, a NASA estaria olhando para essas capacidades apenas como “flexibilidades operacionais”. No entanto, se a agência tivesse um meio independente de impulsionar a estação e realizar manobras de evasão de detritos, os EUA provavelmente conseguiriam dirigir a estação sem a parceria russa.

Ocorre que, conforme destaca o site Ars Technica, ninguém na NASA realmente gostaria que isso acontecesse. E um dos pontos principais para essa resistência, segundo Lueders, é que a relação colaborativa entre os países membros da ISS representa um símbolo importante para a cooperação humana em um mundo repleto de conflitos.

“A ISS é uma parceria internacional que foi criada com dependências conjuntas, o que a torna um programa incrível. É um lugar onde vivemos e operamos no espaço, de forma pacífica”, disse ela. “E eu realmente sinto que esta é uma boa mensagem para nós, que estamos operando pacificamente e seguros agora e seguindo em frente. Se a parceria se rompesse [devido às tensões geopolíticas], seria muito triste”.