Acordo Mercosul União Europeia e o impacto no Brasil no comércio internacional
Acordo Mercosul–UE pode ampliar exportações brasileiras e fortalecer o comércio com a Europa.

Após 26 anos de negociações, o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia avançou para a fase final de ratificação. Nesse contexto, o tratado passa a ser visto como um dos mais relevantes da história recente do comércio internacional, com potencial para provocar mudanças estruturais na economia brasileira, especialmente no agronegócio e na indústria exportadora.

Além disso, o acordo ganha importância justamente em um momento de tensões geopolíticas, restrições impostas pela China e aumento das exigências ambientais nos mercados desenvolvidos. Assim, a União Europeia surge como alternativa estratégica para o Brasil.

Ratificação ocorre após avanço político na Europa

Inicialmente, o acordo foi aprovado pelo Conselho da União Europeia, órgão que exige o apoio mínimo de 15 dos 27 países-membros, representando ao menos 65% da população do bloco. Embora países como França, Polônia, Áustria, Irlanda e Hungria tenham votado contra, ainda assim a maioria necessária foi alcançada.

Agora, por consequência, o texto segue para análise do Parlamento Europeu, onde precisará de maioria simples para entrar definitivamente em vigor.

Diversificação comercial torna-se estratégia central

Para o Brasil, o acordo vai além da simples redução tarifária. Na prática, ele representa uma estratégia de diversificação comercial, sobretudo em um cenário no qual a China, principal destino da carne bovina brasileira, começou a impor limites mais rígidos às importações.

A partir de 2026, o governo chinês passará a adotar cotas e sobretaxas elevadas sobre volumes excedentes. Dessa forma, produtores e exportadores brasileiros enfrentam maior pressão. Por isso, a União Europeia se consolida como uma alternativa estratégica, oferecendo previsibilidade institucional e acesso a um mercado de maior valor agregado.

União Europeia já ocupa posição relevante no agro brasileiro

Mesmo antes da entrada em vigor do acordo, a União Europeia já exerce papel central no comércio agrícola do Brasil. De acordo com dados oficiais, nos 11 primeiros meses de 2025, as exportações agropecuárias brasileiras para o bloco europeu somaram US$ 22,89 bilhões.

Esse montante representa 48,5% de todas as vendas externas do setor no período. Além disso, alguns produtos se destacaram de forma significativa:

  • Carne bovina: US$ 820,15 milhões exportados, com crescimento anual de 83,2%

  • Café verde: principal destino das exportações brasileiras, com US$ 6,43 bilhões

  • Soja: terceiro maior mercado, com quase US$ 6 bilhões

  • Celulose: segundo maior destino, mesmo diante de retração anual

Redução de tarifas tende a ampliar competitividade

Com o acordo em vigor, está prevista a redução ou eliminação de tarifas para produtos como carnes, açúcar, etanol, suco de laranja, café e celulose. Consequentemente, a competitividade brasileira no mercado europeu tende a aumentar.

Além disso, a medida pode estimular exportações de maior valor agregado, melhorando margens e abrindo espaço para novos investimentos na cadeia produtiva.

Salvaguardas e exigências ambientais permanecem

Ao mesmo tempo em que amplia a abertura comercial, a União Europeia mantém mecanismos de proteção interna. Entre eles, destaca-se um gatilho automático que permite a adoção de medidas corretivas caso as importações do Mercosul cresçam mais de 8% em relação ao ano anterior.

Paralelamente, seguem em vigor exigências relacionadas ao combate ao desmatamento, à rastreabilidade da produção, ao cumprimento de normas sanitárias e aos compromissos climáticos internacionais. Por outro lado, essas regras tendem a favorecer produtores mais estruturados, elevando o nível de exigência do mercado.

Resistência no campo europeu segue como obstáculo

Apesar dos avanços, o acordo enfrenta forte resistência de agricultores europeus, especialmente na França. Segundo analistas, esses produtores temem a concorrência com produtos do Mercosul, considerados mais baratos e produzidos sob regras ambientais distintas.

Ainda assim, especialistas avaliam que essa oposição reflete conflitos internos da própria União Europeia, e não uma rejeição direta ao Brasil. Enquanto isso, as negociações seguem avançando no campo institucional.

Acordo pode redefinir o futuro do agronegócio brasileiro

Em resumo, o acordo Mercosul–UE pode se tornar um divisor de águas para o Brasil. No entanto, o país precisará transformar exigências ambientais em vantagem competitiva, investindo em rastreabilidade, sustentabilidade e inovação.

Em um cenário global de protecionismo seletivo, diversificar mercados deixa de ser apenas uma alternativa e passa a ser uma estratégia essencial para garantir estabilidade, crescimento e inserção internacional do agronegócio brasileiro.

Fonte: CNN Brasil