Mulher com enxaqueca segurando as têmporas em ambiente doméstico
Estudos indicam que a genética influencia o risco de enxaqueca em famílias

A enxaqueca é uma condição neurológica comum, incapacitante e frequentemente subestimada. Em muitos casos, as crises intensas de dor de cabeça não surgem por acaso. De acordo com estudos científicos, a genética exerce influência direta no desenvolvimento da doença, o que explica por que pais, filhos e irmãos costumam relatar sintomas semelhantes ao longo da vida.

Além disso, relatos familiares frequentes em consultórios médicos encontram respaldo em pesquisas com famílias e gêmeos. Esses estudos mostram que a hereditariedade responde por uma parcela significativa do risco individual de desenvolver enxaqueca.

O que a ciência explica sobre a hereditariedade da enxaqueca

A enxaqueca é classificada como uma condição poligênica e multifatorial. Ou seja, não existe um único “gene da dor de cabeça”. Pelo contrário, diversas variações genéticas, cada uma com pequeno efeito, interagem entre si e com fatores ambientais para aumentar a suscetibilidade à doença.

Segundo estimativas científicas, a hereditariedade da enxaqueca varia entre 35% e 60%, dependendo do subtipo e da população analisada. Quando apenas um dos pais tem enxaqueca, o risco de o filho desenvolver a condição pode chegar a cerca de 50%. Por outro lado, esse risco tende a ser ainda maior quando ambos os pais apresentam a doença.

No entanto, a genética não determina um destino inevitável. Nem todas as pessoas com histórico familiar terão enxaqueca. Da mesma forma, indivíduos sem casos na família também podem desenvolver a condição ao longo da vida.

Como os genes influenciam os mecanismos da dor

Grandes estudos de associação genômica identificaram dezenas de regiões do DNA associadas ao risco de enxaqueca. Essas variações genéticas se relacionam, principalmente, ao funcionamento dos neurônios, à regulação da dor e às respostas inflamatórias e vasculares do organismo.

Além disso, a interação entre fatores genéticos e ambientais ajuda a explicar por que a doença se manifesta de forma diferente entre pessoas da mesma família. Elementos como estresse, alterações hormonais, qualidade do sono, alimentação e hábitos de vida exercem papel decisivo na frequência e na intensidade das crises.

Existem ainda formas raras da doença, como a enxaqueca hemiplégica familiar, causada por mutações específicas em genes únicos. Entretanto, esses casos representam apenas uma pequena parcela do total de pacientes diagnosticados com enxaqueca.

O que fazer ao ter histórico familiar de enxaqueca

Compreender o componente genético da enxaqueca orienta decisões clínicas mais eficazes. Por isso, pessoas com histórico familiar positivo podem se beneficiar de avaliação neurológica precoce, identificação de gatilhos individuais e estratégias personalizadas de prevenção.

Além do acompanhamento médico, mudanças no estilo de vida fazem diferença no controle das crises. Manter rotina de sono regular, alimentação equilibrada, hidratação adequada e controle do estresse reduz a frequência e a intensidade das dores. Em alguns casos, médicos indicam terapias preventivas específicas, sempre com acompanhamento profissional.

Em famílias com quadros mais graves ou recorrentes, o aconselhamento genético também pode auxiliar. Essa abordagem ajuda a interpretar riscos, alinhar expectativas e orientar o manejo da condição ao longo do tempo.

Entender a genética ajuda a reduzir o estigma da doença

Reconhecer que a enxaqueca tem base biológica contribui para combater o estigma que ainda envolve a doença. A dor não resulta de exagero ou fragilidade, mas de mecanismos neurológicos complexos influenciados por fatores genéticos e ambientais.

Com esse entendimento, pacientes e profissionais de saúde tomam decisões mais bem fundamentadas. Como consequência, o diagnóstico se torna mais precoce, o tratamento mais eficaz e a qualidade de vida melhora de forma significativa.

Texto baseado em análise científica publicada pela CNN Brasil, com contribuição do neurologista Marcelo Zalli, professor titular de Neurologia.

Fonte: CNN Brasil