Trabalhador rural revolvendo o solo durante atividade agrícola associada à transmissão da paracoccidioidomicose no Brasil
Contato direto com o solo expõe trabalhadores rurais ao fungo causador da paracoccidioidomicose

A paracoccidioidomicose, uma doença fatal e pouco conhecida, avança de forma silenciosa no Brasil e, por isso, preocupa especialistas em saúde pública. Embora seja causada por um fungo presente no solo, a infecção permanece invisível para grande parte da população e, inclusive, para profissionais de saúde. Como consequência, o diagnóstico costuma ocorrer tarde, quando o quadro já é grave.

Durante quatro anos, o técnico de informática Antônio Rodrigues Joaquim conviveu com sintomas progressivos sem saber a origem do problema. Inicialmente, ele perdeu peso de forma abrupta após uma gripe. Em seguida, surgiram falta de ar, dores abdominais e dificuldade para engolir. Apesar das idas e vindas aos hospitais, o diagnóstico correto só veio em 2024, quando a doença já havia provocado sequelas irreversíveis

O que é a paracoccidioidomicose

A paracoccidioidomicose é uma micose sistêmica grave causada por fungos do gênero Paracoccidioides. Diferentemente das micoses comuns, que atingem a pele, essa infecção começa nos pulmões e, com o tempo, pode se espalhar para gânglios, mucosas, ossos, cérebro e órgãos genitais. Por isso, quanto maior o atraso no diagnóstico, maior é o dano ao organismo.

Além disso, dados científicos mostram que a doença atinge majoritariamente homens. Para cada 15 homens infectados, apenas uma mulher desenvolve a infecção, o que está relacionado à proteção hormonal feminina.

Como ocorre a transmissão

A infecção ocorre pela inalação de esporos do fungo presentes no solo. Quando a terra é revolvida, o micro-organismo fica suspenso no ar e, então, é aspirado. Por esse motivo, agricultores, garimpeiros e trabalhadores da construção civil estão entre os grupos mais expostos.

No entanto, é importante destacar que não há transmissão entre pessoas, nem de animais para humanos. Embora o fungo já tenha sido encontrado em tocas de tatus, não existe comprovação científica de contágio direto por animais.

Subnotificação esconde a real dimensão da doença

Embora seja a micose sistêmica que mais mata no país, a paracoccidioidomicose não integra a Lista Nacional de Notificação Compulsória do Ministério da Saúde. Por essa razão, o acompanhamento epidemiológico é falho e as políticas públicas tornam-se insuficientes.

Entre 2017 e agosto de 2025, o SUS registrou ao menos 2.424 internações por PCM em praticamente todos os estados brasileiros. Ainda assim, pesquisadores afirmam que os números reais são muito maiores, justamente porque muitos casos não entram nas estatísticas oficiais.

Diagnóstico tardio agrava casos e eleva mortes

Outro fator crítico é a falta de testagem. Atualmente, apenas sete estados realizam exames específicos para diagnosticar a doença. Como resultado, muitos pacientes procuram atendimento quando a infecção já está avançada, o que reduz as chances de evitar sequelas permanentes.

Segundo especialistas, essa limitação estrutural contribui diretamente para o aumento da mortalidade e para a sobrecarga do sistema público de saúde.

Pesquisa científica brasileira traz esperança

Em Mato Grosso, a pesquisadora Rosane Hahn coordena um dos poucos laboratórios de referência em PCM no país. Desde 2018, a unidade já realizou cerca de 1,7 mil exames, identificando centenas de casos positivos.

Além disso, a cientista foi responsável pela descoberta do Paracoccidioides lutzii, uma nova espécie do fungo. Essa identificação foi fundamental porque explicou por que muitos exames davam falso negativo em pacientes do Centro-Oeste e do Norte. A partir dessa descoberta, novos métodos diagnósticos passaram a ser desenvolvidos.

Relação com desmatamento e grandes obras

Estudos mostram que o avanço da paracoccidioidomicose acompanha alterações ambientais intensas. Regiões com desmatamento acelerado, expansão agrícola, mineração e grandes obras de infraestrutura apresentam maior número de casos.

Entre 2017 e 2024, por exemplo, a área plantada na Região Norte cresceu significativamente, coincidindo com o aumento das internações. Dessa forma, pesquisadores alertam que o manejo inadequado do solo contribui diretamente para a dispersão do fungo.

O que especialistas defendem

Para conter o avanço da doença, especialistas defendem três medidas urgentes:

  • inclusão da paracoccidioidomicose como doença de notificação compulsória nacional;

  • ampliação da rede de laboratórios de diagnóstico;

  • garantia do fornecimento regular de medicamentos pelo SUS.

A paracoccidioidomicose nasce na terra, mas seus impactos atingem comunidades inteiras. Por isso, enfrentar a doença exige informação, vigilância e ação coordenada do poder público.

Fonte: Metrópoles