
Uma pesquisa científica publicada em janeiro na revista Science revelou que a chamada gordura bege — um tipo de tecido adiposo capaz de queimar energia para produzir calor — pode ter papel decisivo na regulação da pressão arterial e na proteção do sistema cardiovascular. O estudo foi realizado com modelos animais e ajuda a explicar por que nem toda gordura corporal atua da mesma forma no organismo.
Durante muito tempo, o excesso de gordura foi associado quase exclusivamente a riscos à saúde, como obesidade, hipertensão e doenças cardíacas. No entanto, os pesquisadores demonstraram que o tipo de gordura presente no corpo importa tanto quanto a quantidade.
O que é a gordura bege
O corpo humano possui diferentes tipos de gordura, que se distinguem não apenas pela localização, mas também pela função. Entre elas estão a gordura branca, a marrom e a bege.
A gordura branca é a mais abundante e funciona principalmente como reserva de energia. Já a gordura marrom ajuda a regular a temperatura corporal, queimando calorias para gerar calor. A gordura bege reúne características das duas: surge a partir da gordura branca e passa a atuar de forma semelhante à gordura marrom, estimulando o gasto energético.
Relação direta com a pressão arterial
O estudo mostrou que a ausência da gordura bege torna os vasos sanguíneos mais sensíveis à ação da angiotensina, um hormônio responsável pela contração dos vasos. Esse processo provoca o estreitamento das artérias e, consequentemente, o aumento da pressão arterial.
Segundo os pesquisadores, a perda da gordura bege levou a um aumento da rigidez vascular e obrigou o coração a trabalhar com mais esforço para bombear o sangue. Como resultado, animais que antes eram saudáveis passaram a apresentar sinais claros de hipertensão.
“O que descobrimos é que não é apenas a gordura em si que contribui para a pressão alta, mas o tipo de gordura presente no organismo”, afirmou Paul Cohen, chefe do Laboratório de Metabolismo Molecular da Universidade Rockefeller e autor principal do estudo.
Proteção dos vasos sanguíneos
Outro achado importante foi a identificação de uma enzima chamada QSOX1. Quando a gordura bege está ausente, essa enzima é produzida em excesso, provocando alterações estruturais nos vasos sanguíneos, como rigidez e fibrose.
De acordo com os cientistas, o bloqueio dessa enzima em modelos animais foi capaz de restaurar a função vascular saudável, o que reforça o papel protetor da gordura bege sobre o sistema cardiovascular.
A endocrinologista Cynthia Valério, diretora da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), explica que estudos observacionais já indicavam que pessoas com maior quantidade de gordura marrom e bege apresentavam menor risco de hipertensão. A novidade, segundo ela, foi comprovar esse mecanismo em laboratório.
Possíveis impactos no tratamento da hipertensão
Os resultados abrem caminho para novas pesquisas voltadas ao desenvolvimento de tratamentos mais precisos contra a hipertensão, baseados na interação entre gordura corporal e vasos sanguíneos. Os pesquisadores avaliam, inclusive, se medicamentos já aprovados podem influenciar a atividade da gordura marrom e bege no corpo humano.
Apesar dos avanços, especialistas ressaltam que ainda são necessários estudos em humanos para confirmar os efeitos observados em animais. Mesmo assim, a descoberta amplia a compreensão sobre o metabolismo e reforça que nem toda gordura corporal representa um risco à saúde.
“Quanto mais entendermos esses mecanismos moleculares, maior será a possibilidade de terapias personalizadas para o controle da pressão arterial”, concluiu Cohen.
Fonte: G1



