Homem caminha pelo mundo há 27 anos e se aproxima do fim da jornada a pé
Karl Bushby percorreu cerca de 58 mil quilômetros a pé ao longo de quase três décadas

Há 27 anos, a jornada de 27 anos ao redor do mundo a pé começou quando o britânico Karl Bushby deixou sua cidade natal, Hull, no Reino Unido, com uma ideia que, à primeira vista, parecia improvável até para aventureiros experientes: dar a volta ao mundo caminhando, sem usar qualquer meio de transporte. Naquele momento, o plano era concluir a travessia em 12 anos. No entanto, ao longo do tempo, conflitos geopolíticos, dificuldades para obter vistos e obstáculos extremos transformaram o projeto em uma das jornadas humanas mais longas já registradas.

Atualmente, após percorrer cerca de 58 mil quilômetros a pé, Bushby se aproxima do fim da travessia. Segundo estimativas mais recentes, o retorno ao Reino Unido deve ocorrer em setembro de 2026. Dessa forma, a aventura caminha para o encerramento depois de décadas atravessando continentes, culturas e cenários extremos.

Uma despedida que virou travessia global

Karl Bushby iniciou sua aventura em 1998, esperando que a viagem durasse 12 anos

O ponto de partida foi o Chile, em 1998. A partir dessa decisão inicial, Bushby, ex-paraquedista do Exército britânico, decidiu testar os próprios limites. Assim, buscou provar que era possível cruzar o planeta apenas com os pés. Desde então, atravessou a América do Sul, a América Central e a América do Norte. Mais tarde, avançou por partes da Ásia e, recentemente, entrou na Europa.

Ao longo do percurso, surgiram desafios constantes. Entre eles, frio extremo, isolamento prolongado, detenções temporárias e riscos reais de morte marcaram a caminhada. Além disso, um dos episódios mais emblemáticos ocorreu em 2006. Naquele ano, Bushby atravessou o Estreito de Bering, caminhando entre o Alasca e a Rússia sobre placas de gelo instáveis. Enquanto isso, as temperaturas chegaram a –30 °C, elevando o risco ao limite.

Guerras, fronteiras e decisões extremas

Apesar do preparo físico, o avanço não ocorreu de forma contínua. Por um lado, o desgaste natural impunha limites. Por outro, guerras, crises diplomáticas e entraves burocráticos bloquearam rotas diretas. Em alguns países, a entrada foi negada. Em outros casos, a caminhada precisou ser interrompida por meses ou até anos.

Um dos episódios mais extremos ocorreu em 2024. Diante de novas restrições de visto no Irã e na Rússia, Bushby precisou tomar uma decisão incomum. Nesse contexto, optou por nadar cerca de 300 quilômetros pelo mar Cáspio, ligando a Ásia à Europa. Com isso, evitou novos impasses diplomáticos e manteve a coerência do projeto de seguir apenas por meios próprios.

A mãe que esperou por quase três décadas

Enquanto o mundo acompanhava a façanha, Angela Bushby, mãe do aventureiro, aguardava em Hull. Atualmente com 75 anos, ela viu o filho pessoalmente apenas três vezes desde o início da jornada. Ainda assim, manteve álbuns de recortes, guardou presentes de Natal e acompanhou cada avanço com orgulho, embora também com preocupação.

Segundo Angela, a caminhada tirou seu sono em diversos momentos. Mesmo assim, a convicção de que o filho seguiria até o fim nunca foi abalada. Para ela, o retorno de Karl representa não apenas o encerramento de uma expedição, mas, sobretudo, o reencontro com uma vida que ficou suspensa por quase 30 anos.

Da infância difícil à superação

Antes mesmo da jornada, Bushby enfrentou desafios significativos. Ainda na adolescência, recebeu o diagnóstico de dislexia. Como consequência, sofreu bullying na escola e foi chamado de incapaz por colegas. Apesar disso, encontrou na disciplina e na persistência um caminho de superação. Além disso, a forte ligação com atividades ao ar livre ajudou a moldar sua resistência física e mental.

Outro fator decisivo foi a experiência militar. Durante 12 anos, ele serviu no Regimento de Paraquedistas do Reino Unido. Nesse período, desenvolveu habilidades essenciais para lidar com situações extremas. Assim, construiu a base necessária para enfrentar décadas de caminhada solitária.

O que vem depois do fim da caminhada

Mesmo com a proximidade do retorno, Bushby admite que não sabe como será a vida após a jornada. A readaptação à rotina, às regras e à vida em sociedade permanece incerta. Para quem passou quase três décadas em movimento constante, parar pode representar o desafio mais difícil de todos.

Ainda assim, o fim da caminhada simboliza mais do que uma chegada. Na prática, representa a conclusão de um experimento humano sobre tempo, persistência e propósito. Por fim, depois de 27 anos, cada passo final carrega o peso de uma vida inteira dedicada a seguir em frente — literalmente.

Fonte: BBC Brasil