Retrato de Vera Iaconelli em matéria sobre família de sangue e apoio emocional
Vera Iaconelli analisa como expectativas familiares podem gerar frustrações e conflitos emocionais

A crença de que a família de sangue representa, obrigatoriamente, um espaço de acolhimento, proteção e confiança não se confirma em muitas trajetórias pessoais. Segundo a psicanalista Vera Iaconelli, esse ideal costuma gerar frustração emocional, conflitos recorrentes e sofrimento psíquico, sobretudo em períodos de forte carga simbólica, como as festas de fim de ano.

De acordo com Iaconelli, discursos culturais, publicidade e redes sociais alimentam uma imagem idealizada da família. No entanto, quando a convivência real não corresponde a essa expectativa, surgem sentimentos de inadequação, culpa e desgaste emocional.

“A família continua sendo a mesma, apenas reunida em um momento específico de celebração. Portanto, não se trata de um espaço onde tudo se resolve”, afirma.

Expectativas elevadas intensificam conflitos familiares

Em primeiro lugar, a psicanalista explica que datas comemorativas funcionam como um retrato emocional das relações familiares. Nesses encontros, conflitos antigos, mágoas não resolvidas, lutos e diferenças profundas reaparecem com mais intensidade.

Além disso, eventos como divórcios, mortes, disputas políticas e divergências religiosas tornam-se mais visíveis quando todos compartilham o mesmo espaço. Por isso, o problema não está na existência das diferenças, mas na expectativa de harmonia absoluta.

Nesse contexto, baixar as expectativas se torna uma estratégia de proteção emocional. Em vez de esperar encontros perfeitos, o mais saudável é reconhecer os limites do convívio e entender, com clareza, o que é possível conciliar — e o que não é.

Família não se baseia apenas em afinidade

Segundo Iaconelli, a família não funciona como um grupo de amigos reunidos por afinidade. Pelo contrário, trata-se de um arranjo construído por circunstâncias, escolhas e heranças afetivas que frequentemente unem pessoas muito diferentes entre si.

Ainda assim, essa diversidade pode representar uma oportunidade de amadurecimento emocional. O convívio familiar exige tolerância, escuta ativa e definição de limites claros.

No entanto, em situações de violência, humilhação ou sofrimento constante, a psicanalista alerta que o afastamento pode ser necessário. Nessas condições, manter o vínculo apenas em nome do laço familiar tende a aprofundar o dano emocional.

Novos arranjos de cuidado ganham espaço na sociedade

Diante das dificuldades enfrentadas em famílias tradicionais, outros modelos de vínculo passaram a ocupar um papel central na vida de muitas pessoas. Amigos que constroem relações duradouras de cuidado, apoio emocional e responsabilidade mútua assumem, na prática, funções que antes se restringiam à família consanguínea.

Para Iaconelli, o que define uma família não é o sangue, mas a presença contínua, a lealdade e a disposição para compartilhar a vida ao longo do tempo.

“Todos precisamos de um núcleo onde possamos confiar, retornar e nos apoiar. No entanto, esse lugar nem sempre coincide com a família biológica”, destaca.

Redes sociais reforçam idealizações e ampliam frustrações

Outro fator que contribui para o sofrimento emocional, segundo a psicanalista, é o papel das redes sociais. Ao exibirem apenas recortes felizes da vida familiar, essas plataformas reforçam a ideia de que relações saudáveis não enfrentam conflitos.

Consequentemente, muitas pessoas passam a comparar suas experiências reais com imagens irreais, o que intensifica sentimentos de fracasso e inadequação. Esse efeito se agrava em quem já convive com relações familiares frágeis ou rompidas.

Por esse motivo, Iaconelli defende um uso mais consciente das redes, reconhecendo seus impactos sobre a saúde mental e evitando que elas se tornem parâmetro absoluto de normalidade.

Vínculos reais exigem menos idealização e mais responsabilidade

Por fim, Vera Iaconelli afirma que amadurecer emocionalmente implica abandonar a fantasia de famílias perfeitas. Relações saudáveis não se caracterizam pela ausência de conflito, mas pela capacidade de lidar com diferenças sem violência, silenciamento ou culpa.

Reconhecer que a família de sangue nem sempre representa o principal espaço de apoio pode ser doloroso. Ainda assim, esse reconhecimento permite a construção de vínculos mais honestos, baseados em cuidado real, responsabilidade e escolha consciente.

Fonte: BBC News