
O remédio que virou rotina no envelhecimento brasileiro
O clonazepam, princípio ativo do Rivotril, lidera o consumo de ansiolíticos no Brasil. Em 2024, foram vendidas 39 milhões de unidades, segundo a Anvisa. O medicamento, criado para crises agudas de ansiedade e distúrbios do sono, tornou-se parte do cotidiano de mais de 2 milhões de idosos, muitos deles dependentes há anos.
De uso restrito e controlado, o calmante é hoje símbolo de um problema crescente. Isso ocorre porque o uso prolongado sem acompanhamento médico provoca perda de memória, confusão mental e risco de quedas. Dentro dessa dinâmica, a clonazepam dependência entre idosos surge de forma silenciosa, tornando-se parte da rotina de quem busca alívio imediato.
Dependência disfarçada de alívio
Nos consultórios, os relatos são recorrentes: “Sem clonazepam, não durmo”. A frase, segundo especialistas, traduz a dependência silenciosa que se instala com o tempo.
O neurologista Alan Eckeli, da USP de Ribeirão Preto, explica que a banalização do uso começa na prescrição.
“A insônia é tratada como sintoma, não como doença. O tratamento se eterniza e o remédio vira parte da identidade do paciente.”
Além disso, o efeito rápido do clonazepam — que desacelera o cérebro e traz relaxamento quase imediato — reforça o ciclo de uso contínuo. “Ele funciona, mas o corpo se adapta e exige doses maiores”, alerta o psiquiatra Paulo Rogério Aguiar, da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre. Assim, o que parecia um alívio passageiro transforma-se em vício persistente.
Um retrato de solidão e medo
Entre os idosos, o medicamento muitas vezes vai além do tratamento médico. Isso porque ele serve para preencher o vazio emocional, lidar com o luto ou a solidão.
A psiquiatra Camilla Pinna, da UFRJ, observa que o calmante “passa a ser uma companhia diária”.
“O cérebro aprende a relaxar apenas na presença do remédio. Quando tenta parar, a ansiedade volta ainda mais forte — o chamado efeito rebote.”
Por essa razão, o uso prolongado é reflexo de um envelhecimento solitário, marcado por pouca rede de apoio e desinformação sobre saúde mental. Com o passar dos anos, o medicamento substitui o diálogo, o convívio e o cuidado familiar, resultando em dependencia de clonazepam entre idosos.
Desmame difícil e lenta recuperação
Parar o uso de clonazepam exige tempo e supervisão médica.
A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é a principal alternativa recomendada, embora ainda seja pouco acessível no SUS.
Mesmo assim, pequenas mudanças, como atividade física, sono regular e redução do café, também ajudam na transição, segundo o geriatra Pedro Curiati, do Hospital Sírio-Libanês.
“Suspender abruptamente pode causar crises severas. O desmame deve ser gradual e acompanhado de suporte psicológico”, reforça Curiati.
Além disso, os médicos destacam que compreender a origem da ansiedade é essencial para evitar recaídas em casos de clonazepam e sua dependência entre idosos. Por isso, o acompanhamento psicológico contínuo faz parte da recuperação.
Um alerta de saúde pública
Desde os anos 1990, a prescrição excessiva consolidou o clonazepam como sinônimo de tranquilidade. No entanto, o cenário atual mostra que essa “tranquilidade” tem um preço.
Hoje, ele representa um desafio de saúde pública, pois milhões de brasileiros dependem do calmante para funcionar no dia a dia.
Apesar de ser barato e disponível no SUS, seu uso contínuo mascara sintomas mais profundos, como depressão, luto e isolamento social.
“Esses fatores emocionais pesam muito e precisam ser acolhidos”, conclui Pinna. “Conversas e vínculos podem valer tanto quanto o remédio.”
Entre o alívio e a dependência
O caso do clonazepam expõe uma realidade urgente: o Brasil envelhece entre calmantes e solidão.
Sem acompanhamento médico adequado, o que começou como busca por alívio se transforma em dependência emocional e química, silenciosa e persistente.
Por isso, especialistas reforçam a importância de tratar as causas da ansiedade e não apenas seus sintomas.
Fonte: G1



