A perturbadora origem do mito popular dos zumbis

97

Os fãs de mortos-vivos estão alvoroçados com a recente estreia nos Estados Unidos de The Walking Dead: The Ones Who Live, a mais recente continuação da série de TV pós-apocalíptica.

A nova série – a sétima da franquia – é ambientada após a conclusão da série original, com os atores Andrew Lincoln e Danai Gurira retornando como os personagens Rick e Michonne.

Alguns críticos afirmam que a nova série “não é exatamente o grandioso retorno que estávamos esperando”. Para outros, é “uma vitrine poderosa” para Lincoln e Gurira e um presente para os antigos fãs.

E esses fãs são muitos. A série original de 2010-2022 é uma das maiores já apresentadas na TV a cabo. E já foi revivida várias vezes – afinal, se há algo que sabemos com certeza sobre os zumbis é que eles têm o hábito de sempre retornar.

Costuma-se traçar a história contemporânea dos zumbis a partir do filme de terror A Noite dos Mortos-Vivos (1968), de George Romero.

Na verdade, o filme não menciona a palavra “zumbi”. Ele é uma adaptação bastante livre do romance de vampiros Eu Sou a Lenda (Ed. Aleph, 2015), do escritor americano Richard Matheson, publicado originalmente em 1954. Nele, o último ser humano vivo tenta encontrar uma cura para o vírus dos vampiros.

A história dos filmes de zumbi parece ter começado um pouco antes, com Zumbi Branco, de Victor Halperin. O filme foi lançado em 1932, meses antes das famosas adaptações de Frankenstein e Drácula pela Universal Studios.

Zumbi Branco inclui diversas explicações detalhadas dos zumbis para o público norte-americano, transportando para a cultura popular uma série de crenças do Haiti e das Antilhas francesas.

O peso do vodu é metafórico e também político: 'Papa Doc' Duvalier, presidente do Haiti entre 1957 e 1971, chegou a afirmar que era hungã, um sacerdote vodu.

Algumas pessoas especulam que a palavra “zumbi” é derivada dos idiomas do oeste africano. Ndzumbi significa “cadáver” no idioma mitsogo, do Gabão, enquanto nzambi significa “espírito de uma pessoa morta”, no idioma congo.

Nessas regiões, navios negreiros europeus transportavam à força imensas quantidades de pessoas através do Oceano Atlântico, para trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar das Índias Ocidentais (as Antilhas). Os vastos lucros das colônias alimentavam o crescimento da França e da Inglaterra, que se transformaram em potências mundiais.

Os africanos levavam com eles suas religiões, mas as leis francesas exigiam que os escravizados se convertessem ao catolicismo.

Surgiu, então, uma série de elaboradas religiões sintetizadas, misturando criativamente elementos de diferentes tradições: o vodu, no Haiti, obeah na Jamaica e santería, em Cuba.

Mas o que é um zumbi? Na Martinica e no Haiti, zumbi é um termo geral para designar espírito ou fantasma – qualquer presença perturbadora à noite que possa assumir diferentes formas.

O termo se aglutinou, pouco a pouco, em torno da crença de que um bokor, ou médico bruxo, poderia restituir a vida da sua vítima aparentemente morta, seja com magia, com uma poderosa sugestão hipnótica ou, talvez, uma poção secreta. O bokor então a faria reviver como seu escravo pessoal, capturando sua alma ou sua vontade.

O zumbi, portanto, é o resultado lógico de ser escravizado: ele não tem vontade, não tem nome e foi capturado em uma morte vivente de trabalho sem fim.

A descoberta dos zumbis

As nações imperiais do hemisfério norte ficaram obcecadas com o vodu no Haiti por uma razão específica.

As condições na então colônia francesa eram tão assustadoras e a taxa de mortalidade entre os escravizados era tão alta que uma rebelião acabou derrubando os senhores de engenho em 1791.

Depois de uma longa guerra revolucionária, seu nome francês Saint-Domingue foi substituído por Haiti e a nação se tornou a primeira república negra independente em 1804.

Mas a própria existência do novo país era considerada uma ofensa aos impérios europeus. Por isso, a nação foi insistentemente demonizada como um local de violência, superstição e morte ao longo do século 19, quando eram constantes os relatos de canibalismo, sacrifícios humanos e rituais místicos perigosos no Haiti.

cartaz do filme White Zombie

Apenas no século 20, depois que os Estados Unidos ocuparam o Haiti em 1915, essas histórias e rumores sobre os zumbis começaram a se consolidar.

As forças americanas tentaram destruir sistematicamente a religião nativa do vodu, o que, naturalmente, serviu apenas para reforçar o seu poder.

É significativa a data de lançamento do filme Zumbi Branco, em 1932, pouco antes do fim da ocupação do Haiti pelos americanos. As tropas deixaram o país em 1934.

Os Estados Unidos tentaram “modernizar” um país considerado atrasado, mas voltaram para casa carregando a superstição “primitiva” do país.

Revistas americanas populares dos anos 1920 e 1930 passaram a publicar cada vez mais histórias sobre mortos-vivos vingativos que se levantavam dos túmulos para caçar seus assassinos. Eles eram espectros imateriais, que se transformavam na forma física real de cadáveres em decomposição cambaleantes, que teriam saído de cemitérios no Haiti.

Mas não foi a ficção popular que realmente trouxe os zumbis para o panteão sobrenatural dos Estados Unidos. Dois importantes escritores do final dos anos 1920 não só viajaram para o Haiti como afirmaram algo extraordinário: eles teriam encontrado zumbis de verdade!

Não era apenas uma atração gótica imaginária: os zumbis, segundo eles, realmente existiam.

 'Zumbi Branco'

O jornalista, ocultista, escritor de viagens e alcoólico William Seabrook (1884-1945) viajou para o Haiti em 1927. Ele escreveu um livro sobre a viagem, intitulado A Ilha da Magia (Ed. Hemus, 2010).

Seabrook já havia praticado danças rodopiantes com dervixes na Arábia e tentado participar de um culto canibal no oeste africano. No Haiti, ele logo foi iniciado em cerimônias vodus e afirmou ter sido possuído pelos deuses.

Em um capítulo sobre homens mortos que trabalhavam no canavial, a menção dos zumbis leva um habitante local a levar Seabrook para a plantação da Haitian-American Sugar Corporation. Lá, ele apresentou o escritor aos “zumbis” que trabalhavam à noite nos campos de cana-de-açúcar.

“O pior eram seus olhos”, descreve Seabrook. “Eles eram, na verdade, como os olhos de um homem morto, não cegos, mas fixos, sem foco, sem ver.”

Seabrook entra momentaneamente em pânico, acreditando que todas as superstições que ele havia ouvido eram verdadeiras, até que ele encontrou uma explicação racional: eles eram “nada mais do que pobres seres humanos comuns insanos, forçados a labutar nos campos”.

Este capítulo foi a base do filme Zumbi Branco. Seabrook afirmava com frequência que ele teria sido o responsável por levar a palavra “zumbi” para o vocabulário norte-americano.

Lenda imortal

A outra escritora foi a prestigiada romancista negra Zora Neale Hurston (1891-1960).

Muitos escritores do Renascimento do Harlem, em Nova York (EUA), nos anos 1920 e 1930, estavam interessados pelo Haiti como modelo de independência negra. Eles protestavam contra a ocupação americana. Mas Hurston, mais conservadora, era favorável à ocupação.

Hurston se destacou por estudar antropologia como profissão. Ela foi enviada para estudar o “hudu” (a versão afro-americana do vodu na Louisiana) em Nova Orleans e, depois, passou vários meses no Haiti, treinando para ser sacerdotisa vodu.

Hurston ficou cada vez mais assustada com suas experiências, embora seus relatos antropológicos sejam cautelosos a este respeito.

Milla Jovovich em Resident Evil

Mas, no seu livro de viagem informal sobre o Haiti, Tell My Horse (“Conte ao meu cavalo”, em tradução livre), de 1937, Hurston relata que os zumbis existem e afirma: “tive a rara oportunidade de ver e tocar em um caso autêntico”.

“Ouvi os ruídos partidos na sua garganta e, então, fiz o que ninguém havia feito antes: eu o fotografei”, afirma ela.

A imagem de Felicia Felix-Mentor, o zumbi “da vida real”, de fato, é bastante assustadora.

Logo depois desse encontro, Hurston saiu apressada do Haiti, acreditando que sociedades secretas do vodu pretendiam envenená-la.

Se Hurston realmente tiver encontrado um zumbi no Haiti, a pobre mulher que ela fotografou talvez não fosse uma criatura morta-viva, mas uma pessoa que sofreu morte social, por ter sido expulsa da sua comunidade.

Talvez ela também sofresse de profundas doenças mentais. Afinal, Hurston a conheceu em um dos hospitais de saúde mental do Haiti.

Mas o trauma histórico da escravidão corrobora esta condição terrível de ser esvaziado de si próprio – uma mulher sem vínculos deixada vagando por uma morte em vida.

The Walking Dead é outro fruto dessa história. A série fez muito pouco uso desses antecedentes, mas diversas conexões dos sobreviventes passavam pela Geórgia, nos Estados Unidos – por cenários abandonados que, um dia, abrigaram imensas plantações mantidas por pessoas escravizadas.

Conhecer a história dos zumbis é compreender as ansiedades que essa figura ainda causa na cultura americana contemporânea, que considera a etnia uma questão de fundamental importância até hoje.

*Roger Luckhurst é autor do livro Zombies: A Cultural History (“Zumbis: uma história cultural”, em tradução livre), publicado pela editora britânica Reaktion Press.