O que se sabe sobre o comboio russo de 64 quilômetros que está próximo de Kiev

Imagens de satélite mostram que a ofensiva montada pelo exército da Rússia está parada e fez pouco progresso nos últimos dias

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Caminhões do exército russo passam por um posto policial em Armyansk, no norte da Crimeia, em 24 de fevereiro de 2022, após operação militar na Ucrânia Foto: Sergei Malgavko/TASS via Getty Images

Durante dias, os moradores de Kiev se prepararam para enfrentar um comboio de 64 quilômetros de tanques russos, veículos blindados e artilharia que estaria pronto para realizar um ataque à capital ucraniana.

Dias depois, eles ainda estão esperando.

Nesta quinta-feira (3), a inteligência dos Estados Unidos deu indícios de que o comboio ainda estava parado a uma distância curta de Kiev, assim como foi dito em alegações feitas pelo governo ucraniano e pelo Ministério da Defesa do Reino Unido.

“Ainda avaliamos que o comboio no qual todos estavam focados está parado. Não temos motivos para duvidar das afirmações da Ucrânia de que os ucranianos contribuíram para que ele fosse paralisado ao atacá-lo”, disse um alto funcionário dos EUA a repórteres.

No início do dia, o Ministério da Defesa do Reino Unido disse que o comboio parece ter parado a cerca de 30 quilômetros fora de Kiev e fez “pouco progresso” nos últimos três dias.

“O corpo principal da grande coluna russa que avança sobre Kiev permanece a mais de 30 quilômetros do centro da cidade, tendo sido atrasado pela forte resistência ucraniana, avaria mecânica e congestionamento. A coluna fez pouco progresso em mais de três dias”, disse o comunicado do Reino Unido.

O porta-voz do Pentágono, John Kirby, disse na última quarta-feira (2) que, embora o comboio e o impulso mais amplo da Rússia em direção a Kiev “permaneçam paralisados”, havia uma preocupação significativa “de que talvez a janela esteja se fechando para poder levar ajuda a cidades que podem ficar sitiadas”.

Um alto funcionário da defesa dos EUA disse a repórteres que, embora o comboio esteja sofrendo com a escassez de combustível e comida, os EUA avaliaram que os russos “vão aprender novamente com esses erros e tropeços e tentarão superá-los”.

O progresso estagnado da ofensiva pode criar vários problemas estratégicos para a Rússia.

Como é o principal fornecedor de suprimentos russos para qualquer grande ataque a Kiev, o comboio acaba sendo um alvo muito grande para as forças ucranianas que lutam contra a invasão.

Em segundo lugar, ficar sentado em um engarrafamento de 64 quilômetros de comprimento por dias a fio pode prejudicar a moral e a disciplina dos soldados russos antes de uma grande operação militar.

Martti Kari, que já foi chefe assistente de inteligência de defesa da Finlândia, disse à CNN que ter uma ofensiva presa é ruim para a moral das tropas por dois motivos. “Primeiro, os ucranianos têm drones e aeronaves que podem atacar o comboio. Segundo, quando você se senta no mesmo lugar circulam rumores que afetam sua mentalidade. Então você fica nervoso e cansado, o que não é uma boa combinação.”

Imagens de satélite da Maxar Technologies mostram o comboio no dia 28 de fevereiro
Imagens de satélite da Maxar Technologies mostram o comboio no dia 28 de fevereiro / Foto: Imagens de Satélite/Maxar Technologies

Acredita-se que o comboio tenha entrado na Ucrânia através da Belarus, um importante aliado de Putin, para onde a Rússia havia movido um grande número de tropas nas últimas semanas para realizar o que chamaram de “exercícios conjuntos”. Quando os exercícios terminaram, as tropas não saíram do território e as imagens de satélite mostraram que a Rússia aumentou sua presença militar no país.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, afirmou na noite de quarta-feira que a feroz resistência ucraniana havia abalado a moral dos russos.

“Cada vez mais invasores estão fugindo de volta para a Rússia, de nós, de vocês… somos uma nação que quebrou os planos do inimigo em uma semana — planos que foram construídos por anos”, disse ele em um post no Facebook.

As últimas avaliações sobre o comboio vêm depois que os militares russos divulgaram seus primeiros números de baixas da guerra, dizendo que 498 de seus soldados morreram e outros 1.597 ficaram feridos. O comunicado do Reino Unido na quinta-feira disse que “o número real de mortos e feridos quase certamente será consideravelmente maior e continuará aumentando”.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, expressou “grande tristeza” pelas baixas militares russas.

No entanto, a Rússia parecia estar encontrando menos resistência no sul da Ucrânia, onde o prefeito da cidade estrategicamente importante de Kherson, no Mar Negro, indicou que as forças russas assumiram o controle.

A crucial cidade de Mariupol, no sudeste da Ucrânia, foi sitiada pelas forças russas na quinta-feira, enquanto Moscou busca aumentar seu controle sobre o sul do país.